Porque, às vezes, tudo o que passa por nossa cabeça o tempo todo é irmos embora. Irmos antes que esse grande navio afunde de vez e nós padeçamos com ele...
É essa a sensação em algumas vezes, não é? Que precisamos ir embora. Desesperadamente, inconscientemente, loucamente. Que tudo o que precisamos é sair daqui. E se sairmos todos os problemas se resolverão magicamente por si sós.
Alguém uma vez me disse que eu não podia fugir, não importava o quanto eu tentasse. A pessoa falou isso de uma forma um tanto depressiva, por assim dizer. E eu não entendi o que aquilo realmente significava. Só fiquei mais desesperada. Então eu nunca poderei ir? Isso sempre vai ser a minha realidade?
Um pouco depois outra pessoa me explicou. Dessa vez com um pouco mais de coesão. A pessoa me disse que eu deveria ter uma razão para querer tanto aquilo. E, dependendo das razões--viajar, me mudar, pular de paraquedas--não ia adiantar fazer nada disso, porque o problema estava em mim, não no lugar.Mas essa não é o ponto da história em que quero chegar. A questão é: mas e quando o problema não está em nós? Ou quando é uma mistura dos dois? Quando sentimos que a única maneira de nos salvarmos é sair do barco enquanto ainda é tempo (cada um por sí!)?
As pessoas, não importa aonde formos, ainda tem uma noção de páreas sociais. Párea: a pessoa que foge de uma luta. Não é engraçado como todos preferem morrer juntos do que deixar que apenas um se salve? Ou como as pessoas que conseguem se salvar as vezes nem olham para trás e veem que talvez poderiam ter salvo outro alguém? Não, não estou dando minha opinião. Só levantei reflexões e mostrei a dualidade. É como o 9 e o 6: se você mudar de lado vai ver outro número, outra visão de tudo.
Eu acredito que as pessoas fiquem em um lugar por dois motivos: o primeiro é ele ser tão bom que elas não querem sair de lá e o segundo é ele ser tão rígido que elas não possam sair de lá. O que estamos vivendo hoje em dia? Vivemos em uma grande dualidade, que no seu final tem uma pequena porta preta e branca. A porta podemos dizer que é a salvação, a saída. Podemos não saber o que tem depois dela, mas sabemos que é diferente do que temos ao nosso redor.
Não são todas as pessoas hoje em dia que podem ver a porta branca e preta, são? Como veremos alguma coisa se nos criaram para sermos cegos? Ignorantes? É capaz de acreditarmos nossa vida inteira que aqui é realmente o paraíso, e que ele deve ser exatamente assim. Cegueira. Há também os desafortunados que sabem o que é a porta preta e branca, mas que estão presos e não podem ir até ela. De uma forma ou de outra, a ignorância nos prende. E entre a ignorância e a clareza há uma linha tênue.
Alguns conseguem perceber os motivos que tão poucos, incluindo eles mesmos, ter a opção da porta. Alguns tem livre acesso a ela, e não pensam em levar mais ninguém. Mas não estariam essas pessoas cegas também? Porque foram criadas ao lado da porta, com a chave dela nas mãos, e não conseguem (e talvez nem queiram) imaginar como é não ter-la.
Por que vivemos em uma sociedade onde a chave é entrega a tão poucos? Onde grande parte não tem a opção de ficar por gostar do lugar? Não tem nem a chance de conhecer as partes do lugar onde há beleza, e a vida não é infernal, e de decidir se quer ficar ali por amor? Por que nos cegam os olhos? Por que não nos dão oportunidade? Por que fingem que não ouvem nossos gritos?
E nós, as pessoas que vivemos desse lado da porta--perto ou longe dela--o que podemos fazer? Melhor, o que fazemos? Eu vejo as pessoas se pisarem e se humilharem mutuamente, descontando as frustrações feitas pelos outros em outros. Eu vejo a ganância, a fome, e várias corridas até a porta onde não existem regras, apenas o prêmio de santificação do ganhador. Mas também vejo bondade, potencial. Vejo pessoas que vivem perto da porta olhar para longe e tentar entender, vejo pessoas de longe quererem sair do inferno; conhecer. Vejo pessoas que tentam ensinar coisas as outras. Mas vejo que não são tantas quando precisamos.
Então, por que nós não nos transformamos em uma dessas pessoas? Por que nós não olhamos para quem está do nosso lado, não apenas a quem nos convêm, e o ajudamos? Não importa se gritarmos a plenos pulmões para o mundo que todos merecem a chave se não mostrarmos a quem não vê que eles também merecem ter isso. Que não deveria ser uma utopia, e sim uma realidade. Por que não ensinamos para que assim ambos possam gritar juntos, conscientes?




